Enfim, foi Natal e eu aproveitei essa data especial para dar à minha irmã um presente totalmente desinteressado. Na semana anterior, eu estava na Livraria Cultura quando vi um box com todos os filmes de Harry Potter. Logo sendo Natal, véspera de férias, pensando na hibernação, tendo concluído a lista há pouco tempo, soube na hora que era a oportunidade de também cumprir essa meta.
Durante o processo de hibernação, assistimos a todos os filmes de Harry Potter! Foi interessante ver o desenvolvimento dos atores, a diferença entre os filmes, os diretores, as propostas.
Lembro-me que quando assisti ao primeiro filme, fiquei muito decepcionado com a adaptação. Acho que é um sentimento que todo fã de algum livro sente quando o vê adaptado para o cinema e acaba tendo que ouvir uma voz dizer que certos personagens, cenas, detalhes, acontecimentos não são como se imaginava – como se passássemos a nos sentir obrigados a aceitar a versão de um diretor e a compartilhar, com estatuto de verdade, com todos os outros fãs essas interpretações, fazendo com que o livro perca toda aquela grande porção que julgávamos que fosse somente nossa.
Depois, lembro que a cada novo diretor, um novo sofrimento. Ainda que eu achasse cada filme novo melhor que o anterior, irritavam-me as diferenças desnecessárias e, ainda mais, a certeza de que o filme anterior poderia ter sido melhor.
Assistir a todos juntos fez-me mudar de ideia. Fiquei feliz com a riqueza da diferença. Acho que ao ver que, apesar de ser uma única série, há formas tão distantes de vê-la faz ressuscitar aquele sentimento que eu tive antes de ver a primeira adaptação: no fundo, a história é também mais minha que dos outros, ninguém pode determinar a minha leitura; e a visão do diretor (de qualquer um deles, de todos eles) é tão válida e sagrada quanto a minha própria. Que bom que o Chris Columbus veja a história tão alegre, leve, infantil, destacando o fantástico, a descoberta, a luz do início de uma nova vida. Que bom que o Alfonso Cuarón veja a história pesada, os sofrimentos da falta de referência familiar, da falta de genealogia que produz o sentimento de insegurança causado pela perda de rumo, perda de uma história para se espelhar e repetir. Que o Richard Harris visse no Dumbledore o porto seguro, a segurança, a sabedoria, a certeza do fim tranquilo, e o Michael Gambon a energia, a aventura, a gana para orquestrar todo o enredo do livro. Eu, pessoalmente, fico com minhas impressões, mas ter visto outras, agora, apenas me mostrou as outras possibilidades das quais, com certeza, eu roubei alguns detalhes.

Mas agora, depois de ver todos os filmes, certas coisas devem ser ditas: o Alan Rickman é o melhor ator da série, a Maggie Smith a melhor atriz; o Duda era muito melhor ator que o Harry Potter; e o tempo fez bem a todos os atores mirins.